Os filhos do decreto
Devo confessar que não me sinto muito à-vontade para falar deste assunto, pela delicadeza do mesmo. Mas é um facto, o caso do Sargento Gomes já prendeu a atenção da opinião pública e pôs as pessoas a falar do assunto. Pelo que percebo de leis, o melhor é estar calado. Mas existe sempre a jurisprudência do povo e com essa eu alinho incondicionalmente. O Sargento cometeu um crime à luz da lei mas está inocente segundo o povo. Para a lei sequestrou uma criança a quem ele ama como filha, para o povo ele fez o papel de pai que qualquer criança precisa.Já diz o povo que Pai é quem cria, não quem o faz. E espanta-me que alguém que abandonou mãe e filha, numa clara atitude de rejeição quando teve conhecimento da sua existência, venha agora reclamar a menina. O azar do Sargento acaba por ser uma questão meramente processual, reflexo recorrente do nosso sistema jurídico/legal, por via do qual o processo de adopção acontece numa altura em que o pai biológico já tinha sido obrigado pelo tribunal a reconhecer a filha.
Eu vejo as coisas assim. Qualquer criança tem direitos consagrados. Ter um pai deve ser um deles. Houve alguém que durante muito tempo negou este direito à criança, rejeitando-a pouco tempo após a concepção. Acabou por ser obrigado pelo tribunal a reconhecer a paternidade. E reconheceu. Mas, e o amor? E o carinho? E o afecto? Também são decretos de tribunal? Deixem-me adivinhar, ele vai amar a filha porque o tribunal o mandou? Façam-me um favor! Enquanto ele se recusava a aceitar a ideia que poderia realmente ter uma filha, enquanto aguardava que um Juiz o obrigasse a perfilhar a menina, uma família dava amor a essa mesma menina, nascida de pai incógnito.
Também sou pai e compreendo que, para um pai, a ideia de se ver separado do filho é inaceitável. Talvez por isso compreenda a posição do Sargento. Porque é ele o pai que a menina reconhece. Mas não consigo compreender a outra parte. Porque me fazem muita confusão algumas formas de agir. Ele reclama a filha, no entanto não deixa de falar em indemnizações. Afinal ele quer a menina ou o dinheiro? Se o assunto se passasse comigo eu não aceitava um cêntimo que fosse, apenas o meu filho porque, simplesmente, o Amor que tenho por ele não tem preço. Aliás, no meu particular, não precisei ser obrigado a reconhecê-lo, sou pai por Amor e não por decreto.
Mas a lei no nosso pais parece, por vezes, proteger as situações mais improváveis. Aconteça o que acontecer, espero que seja salvaguardado e que prevaleça o superior interesse da criança.
Imagem retirada aleatoriamente da net.
1 comentário:
"Já diz o povo que Pai é quem cria, não quem o faz. E espanta-me que alguém que abandonou mãe e filha, numa clara atitude de rejeição quando teve conhecimento da sua existência, venha agora reclamar a menina"
Com que direito vem o pai biológico reclamar?? Se quando soube da existencia da criança simplesmente ignorou...E a confusão que se cria na cabeça da miuda?! Será que no meio disto tudo, não é importante parar para se pensar naquilo que lhe garante o bem estar físico e psiquico?
De facto a lei está muito aquém de responder a todas as necessidades humanas, nem todos os casos estão previstos.
"Mas, e o amor? E o carinho? E o afecto? Também são decretos de tribunal? Deixem-me adivinhar, ele vai amar a filha porque o tribunal o mandou? "
Concordo plenamente...=)**
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