Os novos piratas
Uma das coisas que está na berra é falar de pirataria, contrafacção e downloads ilegais, entre outros. Não sou especialista (graças a Deus) nalguns destes itens mas tenho, ainda assim, uma opinião acerca dos downloads. Vejo e leio o que muita gente escreve acerca disto e, sinceramente, depois de ver tanto papagaio acho-me no direito de dizer o que me vai na alma. C’um raio, sendo eu um autor inscrito na SPA, tenho autoridade suficiente para alvitrar um pouco e dissertar (é esta parte que me assusta, às vezes) sobre o que são os direitos de autor e da sua violação.Antes, no entanto, queria deixar claro o seguinte:
1. Não vou fazer a defesa dos lesados;
2. Não vou fazer a defesa dos prevaricadores;
3. Vou apenas lançar algumas pistas para reflexão.
Feita que está a ressalva, começo por questionar a “legalidade” da transferência de ficheiros. São documentos que estão disponíveis na Internet, alguns publicitados e disponibilizados pelos autores dessas páginas. Não é necessário roubar, furtar, enganar, lograr, aldrabar ou qualquer outro acto fraudulento. Apenas digitar um www qualquer, clicar num link ao acaso e… já está. Ilegal, do meu leigo ponto de vista, é por exemplo, entrar numa base de dados de uma empresa e aceder a informação confidencial. Ou entrar por um banco adentro, via net, e mexer nas contas de clientes e desviar dinheiro. Para isto é necessário recorrer a um qualquer subterfúgio manhoso que referi anteriormente. Para mim, isto é que é ilegal.
Outra coisa estranhíssima que em tempos chegou ao meu conhecimento foi um abaixo-assinado, subscrito por um punhado de autores portugueses, a pedir mão pesada da justiça para quem transfere músicas da net. A lista, que deve ter sido patrocinada por uma ou várias editoras, incluía nomes como Ágata, Emanuel, Quinzinho de Portugal… Ora façam-me um favor! Com o devido respeito para os visados, quem é que no seu perfeito juízo iria sacar mp3 da Ágata? Trata-se de uma clara manipulação das editoras. Elas são as verdadeiras lesadas. Mas, para não admitir que pagam mal aos artistas, atiram-se contra os internautas, escudando-se neles e na violação dos seus direitos. Um CD tem um custo de produção muito baixo, uma vez que é produzido em série. O artista ganha um valor reduzido por cada um que seja vendido. O resto é amealhado pela editora. Claro que se o cantor ganhar, por exemplo, 0,10€ por cada CD, se vender um milhão de cópias lucra 100 mil €, se vender apenas a décima parte, ganha… a décima parte. E quem ganha o resto?
Na loja o disco custa à volta de 20€. Para quem estiver um bocadito atento a estas coisas, são as grandes empresas que se queixam de prejuízos enormes. Nunca ouviram um artista dizer que estava a perder dinheiro. Grandes profissionais que são, basta-lhes que tenham trabalho para que se sintam satisfeitos. E quanto mais gente estiver num concerto mais eles facturam. Porque ainda não é possível fazer download dum concerto em tempo real, temos mesmo que ir lá. E grande parte da sua popularidade vem do facto das empresas que lhes produzem e vendem os discos serem, dizem elas, roubadas descaradamente através da net. Os artistas tornam-se mais conhecidos e são bem mais divulgados desta forma. A net faz mais por alguns artistas que certos managers de meia tigela…
Se houvesse interesse em solucionar o problema, há muito que teria sido revista a lei dos direitos de autor. A máquina legislativa, a nível mundial, deixou-se ultrapassar pela tecnologia. Não acompanhou a evolução natural (Darwin teria certamente uma teoria para isto) e não sabe agora como lidar com a situação. Toda a gente paga para ter acesso à net, certo? Bem, então porque não direccionar parte desse dinheiro para as Sociedades de Autores de cada país, para que essas receitas fossem depois distribuídas pelos autores? Façam contas senhores. Imaginem 1€ por mês e por utilizador. Por cada milhão de utilizadores de Internet seria endereçado mensalmente 1 milhão de euros para as sociedades. Globalmente, quantos milhões de utilizadores existem? Pois é. Mas isso representava o fim do monopólio das editoras, tal como está. E, entre perder um ovo de vez em quando ou deixar matar a galinha dos ovos de ouro, é óbvio que ninguém está interessado que se acabe o bem bom e vão fazer de tudo para que ninguém toque numa pena da sua bichinha…
Não é demais lembrar a época que se avizinha e todo o cuidado que se deve ter na estrada. Se não o quiserem fazer por vós, façam-no pelos outros. Isso fará de vocês umas pessoas melhores.
Imagem retirada aleatoriamente da net.
Sem comentários:
Enviar um comentário