Os invasores silenciosos
Ontem fiquei fulo da vida! Levantei-me, fui para tomar banho e não tinha gás. Espreitei no armário do contador e reparei que a válvula estava fechada e tinha um selo de chumbo, ornamentado por um laçarote de fio de cobre, muito bonito. Na dúvida, não fosse aquilo ser do facto de me ter levantado há pouco, consultei também o armário do vizinho e vi que ele não tinha selo nem laçarote. Logo, eu tinha o gás cortado.Depois de ter acabado de acordar, rapidamente percebi o que tinha acontecido. Mudei recentemente de banco, alterei as contas, fiz a devidas alterações de NIB mas, para meu azar, na altura que alterei as informações no fornecedor de gás, a factura já devia estar emitida. Por isso ela foi bater a uma porta que já estava fechada e voltou para trás. Acontece nas melhores famílias e eu até já estou habituado. Mas não foi isso que me indignou.
Fiquei desde logo intrigado com o facto de não ter tido conhecimento prévio desta situação anómala. Não recebi nada pelo correio (embora a Setgás afirme que enviou 3 ou 4 avisos), nem tocaram à campainha para eu abrir a porta do prédio. Nada. Quando dei por isso, já estava. Paguei, claro, sem grande contestação. Era uma situação previsível e por isso, logo que descobri o que se passou, tratei de regularizá-la. Umas horas depois veio a resposta às minhas dúvidas. Fiquei a saber como operam estes invasores silenciosos. Então é assim: os fulanos chegam, esperam que alguém abra a porta para entrar ou sair ou tocam para um dos vizinhos. Depois esgueiram-se sorrateiramente para o interior do prédio, às escondidas, fazem o servicinho e desaparecem ainda mais sorrateiramente. Como se tivessem vergonha do que estão a fazer.
Deviam ter vergonha é da forma cobarde como operam, porque o serviço que fazem está mais que justificado. Pagam-lhes para cortar o gás. É esse o trabalho deles. Por isso não devem ter vergonha de o levar a cabo. Pode haver quem não goste. Acredito. Também não me agrada muito o trabalho do polícia quando o vejo a rabiscar num bloco, junto ao meu carro, de esguelha em cima do passeio. Mas é o trabalho dele. No meu entender, aquilo que esse cavalheiro fez foi uma invasão de propriedade. Porque do ponto de vista legal, a invasão de propriedade acontece quando o intruso entra sem se anunciar, sem autorização ou recorrendo a artifícios manhosos para conseguir entrar. Ora quando um gajo toca à campainha de um andar e diz que é o homem do gás e veio para verificar os contadores, está a mentir para conseguir infiltrar-se no prédio. Ainda por cima teve a lata de dizer que esta é a prática instituída, para não terem, cito, “que estar a levar com os clientes e as suas lamúrias”. É feio.
Espero não voltar a passar por uma situação destas. Nem tenho necessidade. Mas estejam alerta. Andam por aí uns trabalhadores frustrados, com vergonha daquilo que fazem e que por causa desse trauma, agem à socapa, tipo ratos de esgoto, pela calada. Resta uma ferramenta que a lei reserva às pessoas de bem: o livro de reclamações. Eu vou reclamar por esta atitude desprezível. Merecemos mais respeito, mesmo quando prevaricamos. Afinal, como disse Jesus, aquele que de entre nós nunca pecou que atire a primeira pedra. O que seria deste país se todos, de repente, decidíssemos andar a fazer as coisas às escondidas. Qualquer dia ainda nos calhava ver o primeiro-ministro a escrever cartas aos juízes do Supremo...
Imagem retirada aleatoriamente da net (não, não é o gajo do gás!...)
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